Apesar de não existirem números sobre o trabalho remoto em Portugal, trabalhar remotamente é cada vez mais comum.

Quisemos saber como é a realidade dos portugueses que têm um trabalho remoto, seja como freelancers ou como empreendedores digitais. Oito portugueses aceitaram o desafio de falarem das suas maiores dificuldades e desafios enfrentados a cada dia de trabalho.

Quais são as maiores vantagens de trabalhar remotamente?

Liberdade

A liberdade, seja local ou de horários, é a principal vantagem de ser freelancer ou de trabalhar remotamente. “Sou eu quem decide o que quero fazer, quando o vou fazer e como o vou fazer . Ter liberdade para fazer aquilo que eu mais gosto faz com que a minha motivação seja sempre elevada.”, explica Sofia de Assunção.

Esta liberdade em fazer aquilo que mais se gosta é também apontada por Ângela Bastos como algo que a motivou a “não olhar para trás” quando decidiu tornar-se freelancer: “tenho agora total controlo da minha carreira. Para além de estar a fazer aquilo de que gosto, consigo focar-me em projetos dos quais me orgulho e que me desafiam todos os dias.”

Viagem e novas culturas

Falar de nomadismo digital envolve falar da liberdade para viajar ou de estar a trabalhar de qualquer lugar do mundo. “Trabalhar remotamente permite-me continuar a trabalhar em português mas estar a viver na Califórnia. Não precisei de me preocupar com vistos de trabalho ou procurar emprego para vir para aqui: o meu trabalho veio comigo na mochila”, explica Krystel Leal.

Outra das vantagens em trabalhar online, é a possibilidade de encontrar e conhecer novas culturas…mesmo sem viajar! “Trabalhar através do skype possibilita-me ter liberdade e possibilita-me também trabalhar com pessoas de todos os cantos do mundo, com culturas, línguas e backgrounds diferentes, o que para mim é extremamente enriquecedor. Para poder apoiar pessoas nos seus processos de Des-Coberta, eu preciso de me Des-Cobrir a mim mesma e portanto passar tempo na minha única companhia é uma necessidade que o meu estilo de vida profissional preenche totalmente.”, conta Sofia de Assunção.

Jóni Oliveira“Eu procuro constantemente por coisas novas, renovar-me, trocar de lugar assim que começo a sentir a vida demasiado monótona e isso faz com que as vezes o foco no trabalho não funcione a 100%. O meu maior desafio é conseguir fazer tudo o que quero dentro das minhas limitações obviamente, sem perder o foco total no trabalho. Pois a vida do nómada digital ou trabalhador remoto, por muitos pode ser entendida como uma vida de viagens ou de total liberdade, quando na realidade o foco está muito mais presente no trabalho que nas viagens em si, afinal de contas sem trabalhar também não poderíamos viajar.”

Jóni Oliveira, empreendedor digital | Blog | YouTube

Melhor qualidade de vida

Sérgio Fernandes indica que a liberdade local e de horários leva, sem dúvida, a uma maior qualidade de vida. Krystel Leal concorda, completando que “quando descobrimos aquilo que realmente gostamos, podemos passar mais horas a investir nisso, mas sabemos que serão horas que se irão multiplicar em sentimentos de satisfação total. Ter a liberdade de poder trabalhar no que se gosta, quando se quer e onde se quer, é inexplicavelmente bom!”.

Krystel Leal - Nomadismo Digital Portugal Freelancer Marketing Digital“Para se ser um bom freelancer, trabalhador remoto ou empreendedor digital é preciso que te conheças muito bem. Precisas de saber quem é que és e o que é que precisas para estar feliz. Aí sim, podes procurar uma atividade profissional que corresponda à tua essência. Esse trabalho de autoconhecimento pode ser bastante cansativo e violento. Contudo, não existe maior sensação do que estares a trabalhar para ti e em algo que sabes que te faz feliz. Não há melhor forma de ultrapassar as desvantagens e desafios do trabalho remoto, do que saber que se está a fazer aquilo que se gosta.”

Krystel Leal, freelancer em marketing digital, fundadora do Nomadismo Digital Portugal e autora do blog Sou Nómada

Quais as maiores desvantagens em ser-se freelancer e trabalhar remotamente?

Incompreensão

A sociedade no geral ainda não está preparada para o trabalho remoto. A incompreensão das pessoas por este estilo de vida e de trabalho é apontada como uma das principais desvantagens em trabalhar remotamente.

“Poucas são as que percebem que para mim um sábado e um domingo pode não ser sinónimo de descanso”, aponta Krystel Leal. Poder trabalhar “quando se quer” faz com que possamos trabalhar quando nos sentimos mais produtivos, no entanto isso nem sempre é visto com bons olhos como explica Ana Teresa Silvestre: “no início, passava muitas das vezes por mandriona porque preferia trabalhar confortavelmente em casa e acordava tarde porque trabalho melhor à noite; sentia muita incompreensão pelas pessoas, sobretudo aquelas que me eram mais próximas”.

A falta de compreensão vai mais além: as infraestruturas, as legislações e burocracias ainda não estão preparadas para quem tem vários clientes e trabalha como freelancer. “Um freelancer tem tudo menos uma vida estável. Eu quero comprar uma casa e não consigo porque os bancos não me vêem como uma pessoa de confiança por mais que nunca tenha passado um mês sem trabalho.”, confessa Helena Magalhães.

Ana Teresa Silvestre - Consultora Imagem Look a Day“Aprendi a ignorar e a não ouvir opiniões – porque se há coisa que é importante quando se toma a decisão de mudar de vida é nunca duvidarmos de nós. Acreditar sempre que tomámos a decisão correta e de que somos capazes de fazer aquilo a que nos propusemos. Sempre acreditei de que era possível viver, e bem, a fazer o que gosto e ter a vida que queria, e essa crença fez a diferença para nunca ter desistido e hoje, 6 anos depois, a persistência compensou e posso continuar a dizer que tenho a vida e o trabalho que quero, mesmo à minha medida!”

Ana Teresa Silvestre, life coach, consultora de imagem e estilo pessoal e autora do blog Look a Day

Responsabilidade

Ser freelancer obriga também a uma grande dose de responsabilidade, não só para conseguir novos projetos e saber lidar com clientes, mas também para gerir diferentes horários: “Tens que ser muito organizado e focado no teu trabalho. Se, como eu, tens clientes em diferentes timezones, tens que conseguir estar online à noite para teres uma reunião com um cliente dos Estados Unidos ou da Austrália. Isso pode ser algo complicado de gerir se não fores organizado”, explica Sérgio Fernandes.

Sérgio Fernandes - Digital Nomads Portugal“Quando comecei a trabalhar remotamente como freelancer penso que o mais difícil foi a adaptação a trabalhar sozinho, sem ser em equipa. É complicada a mudança inicial pois estamos habituados a trabalhar das “9 as 6” num escritório, a ter alguém ao lado para nos poder ajudar nisto ou naquilo, haver sempre um “zum zum” de fundo. Para fim foi uma grande mudança e sinceramente de início era difícil organizar-me e concentrar-me no trabalho, quase tudo servia como distração. Vais que aprender a estar focado no que estás a fazer, pois as distrações quer em casa como num espaço de coworking são imensas: é preciso uma grande autodisciplina.”

Sérgio Fernandes, freelancer e fundador da comunidade Digital Nomads Portugal

Instabilidade financeira

Contudo, a maior desvantagem de trabalhar como freelancer é a instabilidade ou insegurança financeira. Tal como a Ana Teresa Silvestre explica, “o rendimento não cai direitinho e compostinho na conta no final do mês e há que saber lidar o melhor possível com essa insegurança financeira. No início, em que não há praticamente rendimento, há que ter persistência para pensar a longo prazo. Não há garantias nenhumas de que os clientes aparecem e de que as ações que lanço irão funcionar”. Assegurar um fluxo de trabalho regular é essencial, pois “nunca sabemos o dia de amanhã e é preciso aprender a lidar com essa ansiedade”, responde Sofia Vasconcelos.

Esta instabilidade financeira leva no entanto à ação, seja na descoberta de novos estilos de vida ou de nova organização financeira. Sofia de Assunção conta que foi essa instabilidade financeira que a fez descobrir novas formas ecológicas e económicas para gerir o orçamento e o dia a dia. Helena Magalhães por sua vez, remata com um conselho: “é preciso desligar da importância que se dá ao que os outros pensam porque quem não é freelancer não vai compreender a vida de um freelancer. Tenho amigos que me estão sempre a chatear para viagens e fins-de-semana e estão constantemente a chamar-me “desmancha-prazeres” mas não entendem que prefiro poupar o meu dinheiro para outras coisas porque, ao contrário deles, não tenho um pagamento certo ao final do mês”.

Sofia de Assunção - Coach“De forma a fazer face à instabilidade financeira, tenho pesquisado muito sobre nova economia, uma economia criativa e colaborativa que se apoia em premissas como “se competição gera escassez já colaboração gera abundância” e “economia não é apenas financeira mas multimoeda”. Vou percebendo que o meu trabalho não tem apenas valor financeiro e vou percebendo também que eu não preciso apenas de valor financeiro para ser sustentável. É importante para mim entender como posso materializar estas teorias da nova economia no meu trabalho de forma a torná-lo mais sustentável (financeiramente e não só)”

Sofia de Assunção, coach PNL e facilitadora de processos de Des-Coberta. Apoia pessoas a desenharem as suas vidas profissionais de forma alinhada e coerente com quem elas são e com o estilo de vida que querem viver | Facebook | SiteYouTube

Quais são os maiores desafios que um freelancer em Portugal tem que ultrapassar?

Isolação e Solidão

Conseguir ultrapassar a isolação social é um dos desafios que um freelancer ou trabalhador remoto tem que aprender a lidar. Para Ana Teresa Silvestre, um dos maiores desafios foi precisamente “essa posição mais isolada de estar a fazer algo diferente de toda a gente à minha volta, que seguia uma via ‘mais normal’”.

A solidão e isolamento é algo que todos os trabalhadores remotos passaram, seja com maior ou menor incidência e “é preciso ganhar alguma armadura para lidar com isso. Trabalhar sozinho em casa ou num escritório corta todos os contactos diários que um trabalho “normal” nos proporciona. Não vai haver colega do lado com quem reclamar do patrão na hora de almoço.”, alerta Helena Magalhães.

Ângela Bastos“Não existiu um único dia em que tivesse pensado “esta forma de trabalhar é muito mais fácil”. Pelo contrário: ter controlo total sobre a minha carreira significa que sou a única responsável por conseguir novos projetos, lidar com clientes, gerir as minhas finanças, equilibrar a vida profissional e a vida pessoal e manter-me focada! Para conseguir equilibrar a vida profissional e a vida pessoal, aconselho a todos de tentarem ter um escritório separado do quarto ou local de lazer. Até começar a trabalhar exclusivamente como freelancer, trabalhava num escritório que ficava a uma hora de casa. A hora de regresso a casa servia para sair do “modo de trabalho” e é aquilo de que mais sinto falta ainda hoje, porque tenho o local de trabalho a 1 minuto do quarto: o meu maior desafio, desde o primeiro dia, é desligar!”

Ângela Bastos, digital marketing consultant | Site

Dinheiro e encontrar clientes

Lado a lado com a isolação e solidão (que pode ser combatida com escritórios em grupo e espaços de cowork), a instabilidade financeira volta a ser apontada como um dos maiores desafios de um freelancer em Portugal. “É preciso aprender a poupar e a pensar a longo prazo, pois não sabemos se este mês vai correr tão bem como o anterior. Os clientes podem acabar com o contrato de um dia para o outro ou aquele projeto com o qual contávamos pode não avançar”, explica Krystel Leal.

A dificuldade em encontrar clientes está diretamente associada a este desafio. “É um desafio conseguir encontrar clientes mas também mantê-los satisfeitos para que possa ter projetos e uma fonte de rendimento regular”, explica Sérgio Fernandes.

Para além do dinheiro e da procura de clientes, a procura de condições ideais para trabalhar também é um constante desafio. Para Jóni Oliveira, a procura por uma boa Internet é uma preocupação constante, que pode levar algumas vezes à escolha antecipada do melhor destino ou local de trabalho: “trabalhar remotamente pode ser, por vezes, associado a uma grande desvantagem, pois requer uma conexão e acesso à Internet constante. No meu caso, o meu trabalho depende muito de estar online grande parte do dia e também de planos de dados ilimitados ou com grande quantidade de tráfego, coisas que nem sempre são fáceis de encontrar”.

Helena Magalhães“Saber poupar e saber gerir a vida financeira porque vão haver meses de muito trabalho e outros com pouco e que mal vão dar para pagar as contas. É também preciso plantar sementes para, depois, colher resultados. No meu caso, isso implicou fazer muitos trabalhos gratuitos e bater a muitas portas para me dar a conhecer. É preciso ouvir muitos nãos e não ter medo disso. Não vão começar a cair trabalhos do céu no primeiro mês. Eu fiz muitos trabalhos gratuitos, bateram-me com muitas portas na cara até ter começado a conseguir alguma estabilidade. Actualmente escrevo remotamente para o Observador, para o Brasil Post, tenho um blogue e acabei de lançar um livro. Mas até chegar aqui tive de saber fazer o meu marketing pessoal, vender a minha imagem, o meu trabalho e o meu nome.”

Helena Magalhães, escritora, jornalista e autora do livro “Diz-lhe Que Não” e do blog The Styland.

Equilíbrio da vida pessoal e profissional

Por último, outro desafio de qualquer trabalhador remoto é saber parar. Conseguir equilibrar a vida pessoal e profissional sem prejudicar nenhuma delas é, como explica Sofia Vasconcelos, o seu maior desafio enquanto freelancer: “tentar manter um bom equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal não é fácil. Acabamos por não definir horários fixos e os dois mundos fundem-se facilmente…”.

Sofia Vasconcelos - From Madeira To Mars“Preocupa-te em encontrar um bom equilíbrio entre o teu trabalho e a tua vida pessoal. Faz por conseguir definir horários fixos e evitar que os dois mundos se fundam. É essencial também que tentes assegures um fluxo de trabalho regular, porque enquanto freelancers nunca sabemos o dia de amanhã”

Sofia Vasconcelos, autora do blog From Madeira to Mars

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