Trabalho Remoto: Uma Oportunidade Para as Empresas?

Trabalho Remoto: Uma Oportunidade Para as Empresas?

Trabalhar remotamente é cada vez mais comum no mundo, mas ainda raro em Portugal. Não sei se desse lado me lê um trabalhador remoto, mas aqui desde lado escreve uma freelancer que trabalha remotamente há mais de três anos e que ainda é vista como um bicho estranho.

Não são raras as vezes que me perguntam quando é que vou arranjar um “trabalho a sério”, ou se estou mesmo a trabalhar a partir de casa? Como assim?

O trabalho remoto é cada vez mais comum, mas ainda é um conceito estranho a Portugal e grande parte da “culpa” é das empresas. A menos que a pessoa queira arregaçar as mangas e pôr as mãos na massa para criar a sua própria atividade enquanto profissional remoto, são poucas as empresas portuguesas que se aventuram hoje a contratar remotamente.

Não existem dados oficiais e poucas listas conhecidas sobre o tema. Durante uma pesquisa pelos sites de emprego nacionais, a maioria dos anúncios que encontrei que aceitam trabalho remoto são, inevitavelmente, as de tecnologia/IT.

Esta preponderância da relação “trabalho remoto” com “tecnologia” é real, mas não deve ser vista como exclusiva.

O trabalho remoto pode ser aplicado a todas as áreas – repito: todas.

Como isto não quero dizer que todas as tarefas possam ser feitas remotamente; mas acredito que todas as áreas têm nelas funções e tarefas que podem ser ajustadas e adaptadas (se assim for o desejo do empregado) ao trabalho remoto.

E esta prática pode ser uma grande vantagem e oportunidade para as empresas.

O que é “trabalhar remotamente”?

O Reino Unido e a Holanda são dois exemplos de países europeus que aprovaram, nos últimos anos, o trabalho flexível (a nível de localização e horários) como um direito do trabalhador.

Citando o site do governo do Reino Unido:

o trabalho flexível é a uma forma de trabalhar que se adapta às necessidades do funcionário, por exemplo ter horários flexíveis ou trabalhar a partir de casa.1

Nestes dois países, o empregado pode pedir ao empregador para trabalhar a partir de casa e/ou em horários flexíveis.

Trabalhar remotamente é sinónimo disso: o trabalho ajustar-se à vida do empregado, e não o contrário.

As novas tecnologias estão a acelerar o crescimento desta tendência e deste modo de trabalhar. Com apenas um computador e uma conexão à Internet, pode-se trabalhar a partir de qualquer lugar do mundo.

Quais as vantagens do trabalho remoto para uma empresa?

As vantagens para uma empresa em permitir aos seus empregados de trabalharem remotamente, mesmo que parcialmente/part-time, são várias:

  • A qualidade do trabalho produzida é, geralmente, superior, pois os empregados estão mais felizes, satisfeitos e dedicados;
  • Maior poupança de custos internos, pois não existem despesas com transportes ou manutenção de espaços físicos;
  • Maior produtividade dos empregados;
  • Diminuição do absentismo;
  • Um maior equilíbrio entre a vida pessoal e laboral, levando a uma maior satisfação profissional do empregado.

Como implementar o trabalho remoto numa empresa?

Acredito que não basta anunciar aos empregados, de um dia para outro, que estes podem trabalhar a partir de casa. Trabalhar remotamente é uma forma totalmente diferente de trabalho.

Sou da opinião que para se ter sucesso a trabalhar remotamente, é preciso educar tanto a empresa, como o empregador.

Trabalhar remotamente faz com que se trabalhe por objetivos. Não é preciso a empresa saber quantas horas o empregado trabalhou, ou de que horas a que horas o fez. O que ela quer, é ter o trabalho entregue no dia e hora pedidas.

Assim sendo, o primeiro passo é, na minha opinião, incutir hábitos de organização e produtividade pessoal aos empregados interessados em trabalhar remotamente.

O trabalhador remoto precisa de se conhecer muito bem enquanto profissional. Precisa de conseguir motivar-se para trabalhar, pois estando em casa têm a liberdade para ocupar o seu tempo com outras coisas. Precisa de saber a que horas é que é mais – e menos – produtivo. Precisa de organizar as suas tarefas e organizá-las de forma a conseguir entregar o trabalho na data pedida.

O segundo passo é o de lidar com um dos maiores inconvenientes do trabalho remoto: o isolamento. Trabalhar a partir de casa faz com que o funcionário não mantenha um contacto físico com o resto da equipa, o que pode provocar não só isolamento social como também um afastamento da chamada “cultura da empresa”.

Para lidar com este aspeto, muitas empresas optam por manter um escritório fixo normal. Assim, os empregados têm a possibilidade de o visitar e de aí trabalharem quando sentirem necessidade, não havendo nenhuma pressão.

Para além de se manter um espaço físico que está aberto aos empregados, uma forma da empresa lidar com este isolamento é implementar uma prática e estrutura de comunicação entre a equipa. O uso de aplicações com o Slack é uma forma de manter a equipa em contacto.

A comunicação é o aspeto mais importante para tornar o trabalho remoto uma experiência de sucesso tanto para a empresa como para o trabalhador. É preciso que esta seja fluída e mútua e que ambas as partes ouçam e avaliem as suas necessidades.

O terceiro passo é a adaptação do trabalho da empresa para a Internet. Para trabalhar remotamente com sucesso, é preciso transformar e adaptar o modo de colaboração e trabalho entre e dos trabalhadores.

O desafio parece grande e ambicioso, mas com o aumento do uso da tecnologia e do digital no quotidiano das empresas, é quase impossível escapar à chamada colaboração digital.

Organizar uma reunião por videoconferência via Skype ou Zoom é muito fácil e permite ter reuniões com participantes que podem estar nos quatro cantos do mundo.

No que diz respeito ao trabalho do quotidiano, é necessário adotar ferramentas digitais e educar os trabalhadores a usá-las de forma natural. A solução para isso? A Cloud (Nuvem, em português).

As plataformas colaborativas e ferramentas digitais já favorecem muito as interações entre os utilizadores e, quando unificadas e usadas de forma produtiva, podem ainda ir mais longe.

Usar ferramentas colaborativas com o Slack, o Airtable, o Evernote, entre outras, não só são fáceis e intuitivas, como também são muito estimulantes para a produtividade.

Conclusão

O trabalho remoto desafia os códigos e práticas tradicionais, quebrando as relações clássicas de hierarquia. Para o adotar e usufruir das suas vantagens, é preciso quebrar com crenças e códigos implementados no mundo laboral.

É preciso que as empresas concordem em perder um certo controlo (visual) sobre o seu empregado e deixá-lo em movimento, o que exige uma grande prova de confiança…das duas partes. E esse é um grande desafio.

A confiança das empresas para com os seus funcionários é o pilar obrigatório para que o trabalho remoto seja uma prática de sucesso.

Isso é uma excelente notícia e uma oportunidade para a empresa, pois a confiança é um pilar de gestão empresarial importantíssimo.

As empresas têm que adotar o pensamento de que o tempo de presença de um empregado no escritório não é um indicador do seu trabalho.

É preciso pensar em qualidade em vez de quantidade.

O processo da adoção do trabalho remoto numa empresa deve ser feito, na minha opinião, de forma gradual, com pedagogia e acompanhamento não só por parte das chefias, como também por especialistas em trabalho remoto para que possam ajudar e instruir as duas partes.

O trabalho remoto é uma oportunidade para os funcionários e para as empresas. Esta liberdade e flexibilidade laboral melhora a qualidade de vida de todos.

Estudos mostram que os trabalhadores remotos mostram um compromisso e uma produtividade superior de 22% em comparação com a forma de trabalho “tradicional”. 2

O meu conselho? Experimenta, faz um teste com alguns empregados, por alguns dias por semana no início e analisa os resultados.

Procura-se cada vez mais um maior equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Sabe-se que o trabalho, pelas horas passadas nele, é um aspeto intrínseco da felicidade e bem-estar da pessoa.

A busca desse equilíbrio começa por ouvir-se as necessidades dos empregados. Esse desequilíbrio entre a empresa e o empregador pode ter no trabalho remoto a sua solução.


  1. Fonte: https://www.gov.uk/flexible-working
  2. Fonte: https://www.gsb.stanford.edu/faculty-research/working-papers/does-working-home-work-evidence-chinese-experiment
Escrito por

Krystel Leal

Freelancer em Marketing Digital, apaixonada por movimento e viagens, lançou em 2016 o primeiro site português dedicado ao Nomadismo Digital.

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