Licenciei-me em Fisioterapia em 2007 e em 2008 emigrei para a Suíça para trabalhar na área. Cedo comecei a sentir alguma insatisfação no trabalho e para com a minha vida profissional.

De manhã, não encontrava a motivação suficiente para me levantar da cama com energia para enfrentar o meu dia.

No trabalho, contava as horas que faltavam para que chegasse o final do dia de trabalho. Só queria regressar a casa para dedicar-me, aí sim, a coisas que me davam realmente prazer.

Pesquisei sobre o assunto e sobre esta insatisfação no trabalho. Aparentemente este “problema” era comum às pessoas pertencentes à minha geração. Esta geração Y, geração dos nascidos entre 1970 e 1990, era apontada como culpada.

O que leva à insatisfação no trabalho?

A Felicidade que sentimos é resultado da diferença entre a Realidade que vivemos e as Expectativas que possuímos. A “minha” geração foi acusada de ser mimada e ter expetativas demasiado elevadas. Isso levou a sermos considerados uma geração de insatisfeitos!

Tudo isto me levou a crer que a minha insatisfação no trabalho era culpa minha e não do meu emprego. Que eu é que devia fazer um esforço para me adaptar a esta “vida de adulto”. Que eu devia, acima de tudo, reduzir as minhas expectativas e sonhar menos alto. Talvez assim, eu me sentisse menos insatisfeita com a minha vida profissional.

Só que, apesar das minhas muitas tentativas em resignar-me à realidade e insatisfação no trabalho que vivia, eu sentia-me cada vez mais infeliz. Uma parte de mim recusou-se a aceitar que aquela seria a minha vida dali para a frente. Essa mesma parte de mim acreditava que eu merecia ter um trabalho no qual me sentisse feliz. Um trabalho que me permitisse exprimir os meus talentos e viver as minhas paixões.

Numa tentativa de arranjar uma solução para a minha vida profissional, eu comecei a pesquisar mais sobre o assunto.

Trabalho não é diversão, é sacrifício

Foi com enorme surpresa que descobri que a palavra trabalho deriva do latim tripalium. Tripalium era um instrumento de tortura utilizado na Roma antiga. Era uma espécie de tripé formado por três estacas cravadas no chão na forma de uma pirâmide no qual eram torturados os escravos.

O facto da palavra trabalho estar associada a tortura e sofrimento sustenta a velha ideia de que trabalho implica sacrifício. Trabalho é coisa séria. Trabalho não é sinónimo de satisfação ou diversão.

Também as correntes espirituais-religiosas suportam esta visão sofrida do trabalho. Considerando a visão cristã, trabalho é também uma forma de castigo e de punição. É pelo trabalho que se castigam os pecados cometidos por Adão e Eva no Jardim do Éden. Já a visão budista considera que toda a vida consiste em sofrimento (Roman Krznaric no livro Como Encontrar o Trabalho Perfeito).

Para além desta ideia de que trabalho é sinónimo de sofrimento, durante vários séculos, o trabalho foi visto como uma necessidade inquestionável. As pessoas viviam de tal forma preocupadas com a sua subsistência, que não tinham sequer tempo para se questionarem sobre se gostavam ou não daquilo que faziam. Ter um trabalho era, por si só, motivo de satisfação.

Hoje temos direito à satisfação profissional

Hoje, a realidade é outra. A abundância material em que vivemos atualmente liberou as nossas mentes das preocupações de outrora. Isso deu-nos espaço para refletirmos sobre questões como a felicidade que sentimos no nosso trabalho ou até mesmo o sentido ou propósito do trabalho que realizamos.

Segundo o autor Roman Krznaric, o desejo de encontrar realização no trabalho isto é, realizar um trabalho que tenha um sentido, que reflita os nossos valores, paixões e personalidade, é uma invenção moderna.

Segundo o mesmo autor, a palavra “fulfillment” (que significa realização, satisfação), nem sequer aparece no famoso dicionário de Samuel Johnson, publicado em 1755, o que espelha o quão recente é este noção de satisfação e realização profissional.

Também se observam outras mudanças na realidade laboral. Se outrora ter um “canudo” era garantia de emprego, hoje observarmos milhares de jovens licenciados emigrarem em busca de emprego fora do seu país. Ou não encontram trabalho nas suas áreas ou as condições de trabalho que encontram no seu país são precárias.

Ser-se bom naquilo que se faz é hoje fundamental para o sucesso. Já não chega ser só mais um diplomado. Se queremos “vingar” e ser bem sucedidos, temos que nos destacar das massas fazendo melhor ou diferente daquilo que os outros estão a fazer!

Tudo isto me ajudou a perceber que afinal o “problema” da minha insatisfação no trabalho não estava em mim. Nem na “minha” geração de expectativas demasiado elevadas. O que se passava é que a realidade do mundo do trabalho mudara completamente nas ultimas décadas e que isso fizera brutar em nós necessidades que outrora simplesmente não existiam.

Aquilo que funcionou no passado para os nossos pais e avós não tem mais lugar na realidade atual. E isso, exige de nós reflexões e acções diferentes.

Mudança de vida

Todas estas descobertas marcaram o início da mudança da minha vida profissional. Hoje, parte do meu trabalho enquanto Coach de Orientação Vocacional e Transformação Profissional passa por ajudar as pessoas a perceberem a legitimidade da sua insatisfação no trabalho em relação às suas vidas profissionais como o primeiro passo para uma transformação profissional bem sucedida.

Sem culpas, sem julgamentos, sem pensamentos do tipo “o problema sou eu” ou “eu é que não me consigo adaptar”.

Só aceitando a realidade presente podemos construir um futuro melhor. Esse futuro passará cada vez mais por criarmos um trabalho que ainda não existe. Só assim poderemos viver um trabalho alinhado com os nossos valores. Só assim teremos um trabalho que nos permita colocar as nossas paixões e talentos em prática. Estes são factores essenciais para quem busca uma vida profissional mais feliz!

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