Fundo de Emergência: Sabes o que é e como começar a fazer um?

A vida é cheia de situações inesperadas e sabermos quanto dinheiro temos é essencial. Não devemos apenas lidar com o dinheiro da conta corrente. Ter um fundo de emergência é muito importante e dá-nos mais segurança e tranquilidade.

O fundo de emergência é um primeiro passo para ter uma total segurança financeira e é sobre este tema que o Luís Jordão, investidor, consultor financeiro e fundador da Stoik Capital escreveu este artigo.

Porquê um fundo de emergência?

Um fundo de emergência é uma conta à parte. Essa conta é constituída para fazer face a um imprevisto financeiro e permite cobrir alguns meses de despesas.

O fundo de emergência deverá ser o primeiro passo de formação de poupança. Ou seja, não devemos avançar para investimentos sem antes termos o fundo de emergência constituído.  Dessa forma, conseguimos ter uma almofada de segurança e de estabilidade.

Existem muitas oportunidades de investimento que, para remunerarem bem o capital, implicam imobilizações mais longas. Por conseguinte, durante uma emergência financeira podemos não conseguir desmobilizar os investimentos – ou consegui-lo, mas com grandes penalizações.

Na impossibilidade de aceder aos montantes investidos, podemos inclusivamente ser obrigados a recorrer a crédito e assim ter que pagar juros (normalmente elevados), anulando os efeitos do investimento.

Por outras palavras, termos um fundo de emergência é essencial!

Qual o montante do fundo de emergência?

O montante do fundo de emergência deve corresponder a um valor que se preveja como razoável para um gasto inesperado.

Esses gastos inesperados podem ser uma reparação do carro, da casa, um tratamento ou consultas médicas de emergência, uma viagem de emergência, etc. Para além de gastos diretos, também podem ser situações imprevistas como um tempo sem conseguir auferir rendimentos (desemprego, acidente, doença, etc).

Dependendo do país em que se vive e dos apoios disponíveis, parte destes montantes ou a totalidade podem já estar assegurados.

Contudo, normalmente a recomendação é ter 3-6 meses de despesas mensais nesse fundo. Se fores mais conservador será necessário ter não só as despesas necessárias (prestação da casa/renda, alimentação, transporte, electricidade, etc)., como também as desejadas/habituais. Sendo menos conservador, poderás considerar apenas as despesas necessárias.

Ou seja, uma pessoa que auferir 1000€ e tiver 800€ de despesas necessárias, então um bom fundo de emergência será de 6×800= 4800€.

Quanto tempo para constituir o fundo de emergência?

Se conseguirmos poupar 20% do rendimento, temos então 80% de despesas. Vamos assumir que queremos ter todas essas despesas cobertas (tanto as necessárias, como as habituais), então conseguimos atingir o valor de um mês de fundo de emergência com as poupanças de 4 meses (4*20%=80%).

Se quisermos atingir os 6 meses de despesas, temos que contribuir para o fundo durante 6*4 = 24 meses, ou seja 2 anos.

É portanto essencial perceberes quanto – e onde – gastas o dinheiro por mês. Podes começar agora a fazer essa análise aos teus extratos.

Onde aplicar o montante?

Para funcionar como fundo de emergência, esse montante tem que estar disponível com grande rapidez e não pode variar muito. Não podemos arriscar a que quando se precisa do montante ele não esteja lá ou seja muito demorado levantá-lo.

Investimentos em mercados de capitais (ações, obrigações, fundos mistos) são muito líquidos, mas o valor pode variar substancialmente e não é desejável levantar em determinadas alturas.

Se se decidir constituir o fundo de emergência nestes ativos, então este deve ser cerca de 30% superior ao estabelecido como necessário, de maneira a que o montante disponível esteja sempre (com elevada probabilidade) acima do necessário. No exemplo anterior o fundo deveria ser 4800*1.30= 6240.

Nunca se deve colocar o valor em investimentos ilíquidos, como por exemplo imobiliário ou depósitos a prazo a muitos anos, pois pode ser impossível ou muito penalizador resgatar.

Já os depósitos têm liquidez imediata (à Ordem) ou quase imediata (a Prazo curto) e podem cumprir esta função de fundo de emergência, embora com taxas extremamente baixas.

Em Portugal o ativo que funcionará melhor como fundo de emergência, serão os Certificados de Aforro (CA) e/ou Certificados do Tesouro (CT). São ativos com taxas de rentabilidade baixas, mas ainda assim superiores às taxas dos bancos, e com grande segurança sendo garantidos pelo Estado.

Os Certificados de Aforro têm um montante mínimo de 100€ e um prazo mínimo de 3 meses, enquanto os Certificados do Tesouro têm um montante mínimo de 1.000€ e um prazo mínimo de 1 ano. As taxas começam em cerca de 0.75%, com subidas previstas para o futuro nos CT e prémios de permanência nos CA.

Certificados de Aforro (CA):

  • Montante Mínimo: 100€
  • Prazo Mínimo: 3 meses

Certificados do Tesouro (CT):

  • Montante Mínimo: 1.000€
  • Prazo Mínimo: 12 meses (1 ano)

Como fazer na prática?

A primeira vez que se subscreve os Certificados de Aforro ou os Certificados do Tesouro temos que nos deslocar a uma loja dos CTT. Depois de termos uma conta Aforro – podemos aderir ao AforroNet – e passar a fazer subscrições e resgates online. As subscrições são pagas com uma referência multibanco e os resgates são recebidos na conta bancária que indicarmos e que, obviamente, tem que estar no mesmo nome.

Utilização do fundo de emergência

Com o fundo constituído temos uma situação muito mais agradável do ponto de vista financeiro, pois sabemos que estamos cobertos em relação a algum imprevisto. Esse conforto permite conseguir assumir maior risco no restante capital e permite viver de uma forma mais livre.

Temos que ter atenção ao que é considerado “emergência”. Pode haver a tentação de acabar por gastar mais em certas compras mais substanciais (casa, carro, viagem de férias, etc) e após esse gasto extra voltar ao ponto de partida de zero poupanças e sujeição a imprevistos, com a decorrente instabilidade financeira e emocional.

O fundo de emergência só deve ser utilizado para efetivas emergências e após a sua utilização dever-se-á repor o montante estabelecido.

Revisão dos montantes/tipo de investimentos do fundo emergência

Numa base anual deve ser reavaliado se o montante e o tipo de investimentos disponíveis se alterou e fazer os ajustes necessários. O montante tenderá a evoluir com o nível de despesas, especialmente as necessárias (nasce um bebé, mudança de casa, etc), mas também deve evoluir com o tipo de rendimentos (ex: emprego fixo passa a profissional independente, recebimento de rendas vs trabalho, etc).

Além disso, as características dos CA e CT estão constantemente a ser revistas, assim como as taxas disponíveis no mercado, e todos os anos são lançados novos produtos, pelo que temos que estar sempre alerta para as várias alternativas disponíveis para a constituição do fundo de emergência. Sempre focados no binómio liquidez e segurança!

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