Faz este mês um ano que larguei o meu trabalho de fisioterapeuta para ajudar pessoas nos seus processos de transformação profissional e orientação vocacional.

Fazendo um balanço deste ano, sinto-me muito realizada com tudo o que tenho feito. Adoro escrever e falar sobre estas questões de trabalho com propósito, de vivermos fazendo o que mais amamos, de colocarmos os nossos dons ao serviço do mundo, etc e tal.

Mas, nesse balanço, apercebi-me de que raramente falei da parte menos cor-de-rosa disto tudo…

No meu caso, eu larguei um trabalho por conta de outrem para me lançar como freelancer a trabalhar de forma quase exclusivamente remota numa área completamente distinta e nova para mim (coaching). Isto, ao mesmo tempo que deixava um dos países mais ricos da Europa (Suíça) para regressar a Portugal.

A primeira consequência direta desta minha escolha foi o meu salário. Se antes eu tinha um salário fixo que ultrapassava os 4000€, agora tenho um salário totalmente irregular.

Os meus primeiros meses como freelancer a trabalhar de forma remota significaram muito trabalho e “zero” de salário. Muitas horas a criar conteúdos escritos e audiovisuais totalmente gratuitos, muitas horas a partilhar publicações nas diversas redes sociais, muitas horas de atendimentos pro-bono…e o que muita gente não sabe é que, ao lançar-me numa área totalmente nova para mim, eu passei igualmente muitas horas a pesquisar sobre edição de vídeo e imagem, construção de sites, marketing online, gestão de redes sociais…muitas horas de trabalho até eu receber o meu primeiro pagamento.

E, não vos vou mentir, ainda hoje, muitas das horas do meu dia são passadas a desenvolver ideias sem que alguém me pague alguma coisa por elas (fundamento básico do marketing online).

E agora vocês perguntam-se como é que eu consigo viver assim, do ponto de vista financeiro. Ainda para mais vivendo numa casa no campo que partilho com o meu companheiro, o nosso bebé de quase três meses, dois cães e um gato? Eu sei que o cenário parece idílico mas não é!

Para eu ter a possibilidade de me dedicar àquilo que gosto e conseguirmos viver financeiramente, o meu companheiro viu-se obrigado a colocar os projetos dele para segundo plano. Trabalha por conta de outrem das 9h às 18h todos os dias da semana e às vezes ao sábado tudo para termos algum dinheiro garantido. Para além disso, duas vezes por semana, ao final do dia de trabalho, damos aulas de dança para angariar mais uma ajudinha financeira.

E, para revelar toda a verdade, toda a nossa vidinha no campo perto da praia seria impossível se a casa não fosse uma herança de família e se não tivéssemos ajudas dos pais, que sempre vão apoiando com as refeições e outras ajudas preciosas no dia-a-dia.

Mais vos digo. Na Suíça, eu perdi a conta às minhas inúmeras idas a diferentes bares e restaurantes, fui a concertos e espetáculos diversos, decorei e re-decorei o meu apartamento e era rara a semana em que não comprava alguma coisa mais supérflua para mim.

Em sete anos, visitei mais de dez países em quatro continentes e pude ainda viajar durante um mês por Bali, na Indonésia, após ter pedido um mês sem vencimento no meu trabalho.

Mesmo que quisesse, eu não poderia de forma alguma viver este mesmo estilo de vida com os ganhos financeiros que tenho atualmente. Lançar-me como freelancer requer de mim que abdique de alguns luxos que tinha como adquiridos na minha vida passada e que adie alguns sonhos como o de remodelar a nossa casa ou voltar à Indonésia.

Agora, se voltaria atrás? De forma alguma! Eu hoje acordo feliz e motivada quando antes acordava deprimida e sem vontade de viver. Não dou pelos meus dias passarem quando antes via cada hora passar no relógio e contava os minutos que faltavam para sair do trabalho.

Antes, no final de cada dia de trabalho, eu sentia-me exausta, esgotada, sem energia para fazer o que quer que fosse. Agora, eu nem sequer sei dizer quando é que o meu dia de trabalho chega ao fim porque eu amo tanto o que faço, que às vezes nem sinto que estou a trabalhar.

Ao longo do dia, eu alterno entre os meus diferentes projetos, os meus atendimentos de coaching, as tarefas domésticas, a dança. Quando me apetece relaxar, saio para o jardim, brinco com os cães ou dou um passeio pelo campo ou pela praia. Não sinto tédio porque tenho a possibilidade de variar de atividade quando sinto necessidade disso.

Já para não falar que trabalhar de forma remota permite-me viver a maternidade de uma forma mais alinhada com as minhas convicções, mas isso é assunto para um outro artigo.

Se esta vida é para todos? Longe disso! Esta é a vida que eu desenhei (e vou desenhando todos os dias) para mim, de forma a viver o mais alinhada possível com os meus valores.

E isso é o que eu defendo: que todos nós devíamos parar um pouco e pensar se a vida que estamos a viver é realmente a vida que desenhámos para nós ou se é a vida que simplesmente aceitámos viver.