O que aprendi “apenas” ao desinstalar o Instagram do telemóvel

O que aprendi “apenas” ao desinstalar o Instagram do telemóvel - Nomadismo Digital Portugal

As redes sociais são feitas para nos viciarem quando estão na ponta dos nossos dedos. O que aprendi “apenas” por desinstalar o Instagram, o Facebook e o Pinterest do meu telemóvel.

Outubro 2019. Sentia que a minha vida e produtividade estava a girar à volta das redes sociais. Não me entendas mal: eu trabalho com marketing digital e reconheço a importância das redes sociais.

Sei o potencial que elas têm, sei o que elas permitem alcançar e sei que elas permitem uma conexão digital que poucos outros meios de comunicação permitem. E sei que quando somos sugados pela tecnologia, é porque não sabemos lidar com ela.

E eu, mesmo nunca tendo a pessoa mais ativa nas redes sociais, sentia que estava a ser sugada por uma espiral de voyeurismo que me estava a tornar um robô.

Eu, que estudo o digital e a tecnologia, estava a sofrer a maior consequência das redes sociais: um automatismo do meu pensamento e da minha ação.

O meu pensamento e a minha ação estavam a ser controlados

Os meus pensamentos começaram a girar à volta do que lia as pessoas a comentar em perfis de pessoas com trabalhos similares ao meu.

As minhas ações resultavam em produção de coisas que eu sabia que iam resultar em tráfego e leituras, porque tinha tido a prova que isso era procurado e desejado ao ler comentários e mensagens de pessoas.

E aqui batemos na primeira grande (se não a maior até) vantagem das redes sociais para quem trabalha com o digital: elas permitem-nos ter um feedback precioso daquilo que fazemos, e permitem-nos saber exatamente quais são as necessidades e problemas da nossa audiência.

Se segues os meus conteúdos relacionados com criação de produtos e serviços digitais, sabes que defendo que o que oferecemos deve responder a um problema. Isso não só garante o sucesso do que fazemos, mas significa que estamos a agregar valor.

Mas a verdade é que querer resolver problemas e agregar valor, não precisa de ser sinónimo de uma procura constante do que as pessoas dizem que precisam. Ao estarmos sempre a querer ouvir os outros, podemos acabar por nos afastarmos daquilo que queremos realmente fazer.

A sustentabilidade financeira justifica a utilização das redes sociais

Podes-me dizer que se isto é um negócio, temos que fazer as coisas para ganhar dinheiro e para ter sucesso financeiro. Concordo contigo: uma das bases para continuar a trabalhar com o Nomadismo Digital Portugal é o facto de este projeto representar uma fatia considerável do meu rendimento. Se depois de quase quatro anos não fosse assim, talvez não estaria a escrever este conteúdo para ti.

No entanto, uma das bases para ter criado o meu trabalho por conta própria como freelancer e, consequentemente, o Nomadismo Digital Portugal, foi porque queria ser feliz e sentir-me realizada profissionalmente.

Se não fosse essa motivação tinha continuado a trabalhar em empresas e agências de comunicação. Trabalhar por conta de outrem dá, em muitos casos (e no meu certamente), mais dinheiro e menos dores de cabeça.

Por saber que queria satisfação profissional, dei então o salto. Criei o meu trabalho como freelancer e, um ano depois de trabalhar por conta própria, criei o Nomadismo Digital Portugal porque queria gritar ao mundo (ou pelo menos a Portugal) que é possível trabalhar desta forma.

Queria contar-te como é que fiz, o que aprendi, o que criei e tudo o que podia partilhar contigo, fi-lo.

Mas quando o projeto começou a ganhar uma dimensão mediática, o balanço entre o desejo de alcançar sustentabilidade financeira e o desejo de ajudar foi afetado.

Sabia – sei – que podia ganhar dinheiro com o projeto: e comecei a fazer “tudo” para alcançar mais dinheiro e mais euros na conta da empresa do Nomadismo.

Mais dinheiro = mais responsabilidade

Comecei a receber cada vez mais mensagens que não conseguia responder decentemente.

Comecei a receber pedidos de ajuda e sentia que encaminhava mais as pessoas para produtos que estava a vender do que para ajuda propriamente dita.

Mais cursos e formações vendia, mais cansada comecei a ficar.

Lógico que estava cansada! Tinha que criar mais conteúdo, mais cursos, mais vídeos, mais eventos, porque sabia que isso me iria trazer rendimento.

Sei que todos os produtos digitais no Nomadismo têm muita qualidade – faço sempre os melhores produtos, e quem já fez um curso ou formação comigo, sabe que entrego sempre mais do que prometo inicialmente.

Nunca deixei que este desejo de maior sustentabilidade financeira afetasse a qualidade do meu trabalho – esse é sem dúvida o pilar central de tudo o que faço.

Mas cheguei a um ponto (que coincidiu com o lançamento da última turma do ano do curso online Free-Lança) que o cansaço não era apenas associado ao tempo investindo na criação dos conteúdos.

Era cansaço porque já não me via refletida naquilo que estava a fazer.

A influência do mundo no que fazes

Andava a consumir muito do que os outros faziam.

Sabia o nome de todos os empreendedores portugueses que andam a criar serviços e produtos digitais.

Lia os comentários de posts de lançamento de produtos digitais de outros profissionais para estruturar os meus próprios lançamentos.

E eu, que nunca investi muito em redes sociais, andava a criar diretos, várias sequências nos stories e posts quase diários no Instagram.

Depois de vários dias com a cabeça a doer e sem saber que produto digital criar depois do Free-Lança, é que realizei:

Eu não comecei isto para estar cansada. Eu comecei isto para estar feliz e para te fazer feliz profissionalmente.

Quero que compres os meus produtos porque SABES que são os que te vão permitir chegar onde queres chegar. Não quero que os compres porque os meus stories no Instagram são os mais bonitos.

Não quero aplicar técnicas de manipulação mental para te fazer comprar os meus produtos. Quero ensinar-te precisamente a entender quando te estão a manipular, para saberes exatamente como te deves comportar perante tal comunicação.

Quero que aprendas a ganhar dinheiro com o teu trabalho ao longo do tempo, de forma estável e regular, e não apenas em fases de lançamentos ou períodos de promoções.

Desde que me lancei como freelancer a tempo inteiro que tenho uma renda regular e estável. E é isso que te quero continuar a ensinar: a teres uma carreira, não apenas um trabalho pontual.

Tive que parar uns dias para analisar tudo o que fiz nos últimos quatro anos como trabalhadora remota. O meu diferencial nunca foram as redes sociais. O meu diferencial nunca foi a venda.

O meu diferencial foi a total personificação do que falo e de toda a ajuda que dou. Os meus conteúdos sempre foram eu. E sempre foi com isso que ganhei dinheiro.

O Nomadismo Digital Portugal alcançou o sucesso porque eu sempre personifiquei tudo o que digo e promovo.

Foi aí que decidi desinstalar todas as distrações que me estavam a condicionar e a bloquear os movimentos. Instagram, Facebook e até o Pinterest foram desinstalados do meu telemóvel.

Durante alguns dias, ainda entrava no Instagram no Facebook Creative Studio para acompanhar alguns comentários na página do Nomadismo. Dei por mim a entrar algumas vezes no Instagram através do browser, mas felizmente a experiência de browser não é tão viciante como no telemóvel.

Depois de alguns dias, cansei-me. Já nem me lembrava do Instagram. Só queria escrever, só queria aprender. Não ter ninguém a influenciar de forma tão direta a minha ação fez com que eu acabasse por ler aquilo que realmente precisava e queria.

Como saber o que as pessoas querem?

Não ter ninguém a direcionar o meu desejo, fez com que eu escrevesse apenas aquilo que genuinamente eu acho que preciso de dizer. Como não tenho nenhuma estratégia de análise de mercado e comportamento atrás, como é que sei que é aquilo que tu queres e precisas de ler?

Na realidade, não sei. Mas acredito que se comecei o projeto em 2016 a escrever aquilo que sabia e acabou por resultar, não sei porque não poderá resultar agora.

Se vou voltar a usar o Instagram? Provavelmente sim. É uma rede social incrível. E não vou apagar a minha conta pessoal nem a do Nomadismo. Vou continuar a entrar lá para ver alguma coisa que queira, ou partilhar algo que quero.

Mas por enquanto, sei que quero aproveitar a total independência da minha ação e do meu pensamento – e isso é sinónimo de dizer um até já às redes sociais, e um bem vindo de volta ao processador de textos e aos conteúdos do Nomadismo Digital Portugal.


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Krystel Leal

Krystel Leal

Trabalha por conta própria e remotamente desde 2015. É a fundadora também do Nomadismo Digital Portugal. Curiosa por natureza, passa demasiado tempo a questionar-se sobre o futuro das coisas. Vive hoje na Califórnia, em Silicon Valley, onde vê os seus questionamentos a materializarem-se bem mais rápido do que alguma vez imaginara.

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